Poesias de O Sentimento da Ausência

Poesias de O Sentimento da Ausência

I
À maneira de Jorge Luís Borges

Nascemos para o sonho. Nascemos para a dor, sem a qual não existiria o júbilo. Nascemos para a consciência do tempo e para o conhecimento do vazio. Nascemos para o amor. Nascemos para a lembrança. Nascemos para o medo e o desejo, que estão na origem da acção. Nascemos para a acção, enigmática tradução do que nós somos. Nascemos para a aparente possibilidade de tudo e para a descoberta dos limites. Nascemos para a ironia, que pode ser a tristeza sublimada. Nascemos para as viagens, que tantas vezes não são mais que fugas. Nascemos para a mudança e o envelhecimento. Nascemos para a morte.

(NOV 83 ‑ JUN 89)

III
‑A água triste que uma lua verde segregou?
‑a lágrima.

(SET 82)

 

‑O coração acastanhado de onde saem pêlos onde a água dorme?
‑o coco.

(AGO 83)

 

‑A pedra verde com a forma de um macaco acocorado
que cai de súbito e ecoa e nos devolve o tempo?
‑a rã.

(SET 83)

 

‑É o espelho negro onde os teus olhos
resgatam pensamentos que falharas.
‑a página.

(FEV 85 ‑ DEZ 86)

V

Passando, faz‑se nada a nossa vida,
do tempo presa, da incerta sorte,
e gela­‑me sabê‑lo enquanto a morte
em cada instante sinto que se olvida.
Como fizera ainda da esvaída
confiança que se finge praça‑forte
se só angústia, sem história ou norte,
o meu silêncio guarda, desmedida?
Conheço a solidão sem movimento,
onde se torna sonho quanto vivo;
e da aguda consciência cativo–
que da razão já sinto descolada–
a uma ausência em vida adivinhada
vejo vazar o próprio pensamento.

(DEZ 82 ‑ NOV 92)

 

Acaso me volvendo a esperança
ao coração entre embotado e triste
de ser se cansa e logo se desiste
no tempo onde vegeto sem mudança.
Que até em me encontrar desconfiança
descubro no sentir que vão persiste,
se só de mágoa e abandono existe,
perdida da memória a segurança.
Em toda a novidade, em meu desnorte,
em máscaras que sou e desconheço
(pela consciência ainda duplicadas)
diviso apenas decadência e morte.
E assim em falsa quietude esqueço,
extraviado dentro dos meus nadas.

(DEZ 82 ‑ ABR 94)

 

Um poeta no seu labirinto

Foi‑me tão longa e funda a solidão
que vi a dor mudar em pensamento;
neutralizado assim o sofrimento,
julguei ter o governo da emoção.
E dela livre, p’la imaginação,
até onde podia o meu alento,
arroguei-me do’ humano sentimento
enquanto ia vazando o coração.
Mas sem que o perigo apercebesse,
em máscaras de mim me extraviei
negando em cada uma outra verdade.
E reaver-me agora me parece–
na ausência viva que enganar não sei–
a última ironia da saudade…

(DEZ 82 ‑ JUL 03)

 

De longo desamor e solidão
na casa do silêncio agora vivo
e nem posso dizer que estou cativo
senão do meu desejo de inacção.
Perdi o gosto lento da atenção;
no tempo me ficou o ser altivo
se até, da dor, a consciência esquivo,
olvido só buscando, abdicação.
De querer desertado e de esperança,
me abstraí do tempo e da mudança;
e já de mim, do mundo o sentimento
sumido, se em ficções me reinvento
não refuto por isso o meu estado,
de seu remédio vão desenganado…

(FEV 83 ‑ MAR 05)

 

Se para amar, e amando o amor sofrer,
mudando, ao mundo vimos um momento
na dor de perecer seu sentimento
não hei‑de, enmimesmado, entristecer:
metamorfoseado há-de volver
alucinando o corpo, o pensamento,
ao coração me devolvendo o intento
que tenho, de ser belo, em seu poder.
Nem do amor eu digo que, cativo,
sem ímpeto me deixa para achar,
além da sua esfera, um outro encanto,
que, enquanto dura, como eu sou tanto!
Pois só amando encontro, por amar,
esta alegria rude de estar vivo.

(DEZ 82 ‑ ABR 02)

 

Relojoeiro do meu sentimento,
para me divertir o desmontei
e o seu mecanismo escrutinei–
pura vaidade do conhecimento.
Mas para o desmontar, o pensamento
sem o saber ainda, escangalhei,
e quando quis não mais o consertei,
parado em meu alheio movimento.
Na minha lucidez desbussolada,
em muda solidão que já não sente,
aquém da vida, aquém do mundo vivo.
E tendo só silêncio por morada,
recordo sem paixão o bem ausente
e vejo vir a sombra, em mim cativo.

(FEV 83 ‑ JAN 92)

 

Bem dentro do silêncio me quedei
não sei se ouvindo de querer ouvir
ou se sentindo por julgar sentir
o que não soube e agora menos sei.
Que quanto então eu interiorizei
o tempo baralhou em seu devir;
nem pode o pensamento traduzir
o que desse momento conservei.
Como um segredo ainda no olvido,
em meu encantamento apreendi–
porém ignoro se auto–encantado.
Quiçá se tudo foi em mim urdido,
p’ra os mitos a que serve de alibi
p’lo medo e o desejo falseado…

(DEZ 82 ‑ SET 03)

 

Sonho acordado, a vida vem e passa,
da morte dia a dia resgatada,
em ficções e mitos transviada,
secreta indo alheia à dor, à graça.
E formigando sobre a terra baça,
p’ra o bem e o mal forçamos a parada,
e de esperança contrabandeada
nos vamos distraindo da desgraça.
Mas nem o enganoso pensamento
que cinzas faz eternas pelo canto
e fábulas do tempo e da lembrança
a angústia nos furta da mudança–
nem de sabermos quanto somos tanto
da terra que seremos, ou do vento.

(FEV 83 ‑ NOV 02)

 

Será verdade que nós, gregos, estamos realmente mortos
e apenas parecemos vivos – em nosso decaído Estado,
onde imaginamos ser a vida um sonho?
Ou estaremos realmente vivos e foi a vida que morreu?

Palladas de Alexandria

 

País de cinza que num sono fundo
há séculos vegeta tristemente
alheado da história, em si ausente,
alma vazia de quem foi o mundo…
Mitificar o tempo, então fecundo,
em que a vontade a sorte indiferente
fazia sua é‑lhe o prazer dolente,
nem desejando algum erguer segundo.
Heróis sonhando, ele que foi herói,
na névoa do destino não descobre,
preso dum sono consciente e mudo.
E angustiado ao peso do que foi
seu ser maior que si, sabe­‑se pobre,
‘squecido até de ter podido tudo.

(DEZ 82 ‑ ABR 92)

 

Quem tudo foi sem que já nada o tente
em viagens, em desígnios, em poder,
pela acção da crença e do querer,
vazio se contempla, consciente.
Um nada só recorda vagamente
de mares, de cidades a esquecer,
que o tempo é bruma, sem desconhecer
quanto o passado é fábula presente.
E prisioneiro do horror sem fundo
de, agindo, ter de acordar p’ra nada
de um sono afim da morte e da inocência,
no tédio se compraz alheio ao mundo
sem mais saber da vida em si negada
se tudo é sonho e dor de ser ausência.

(AGO 83 ‑ OUT 94)

 

No sangue sente o poema a melodia
secreta da memória que não tem
o poeta dela, ou do fica além,
em sonhos que extraviará o dia.
Silêncio ainda é na folha fria
até que, súbito, do olvido vem
o pensamento, em si fechado, sem
saber o que de si espelharia.
E, como do botão negado, a flor
ausência se torna, rebentada,
o canto sedutor e o pensamento
devindo são, na calha dum momento,
a fábula sabida e olvidada
de que o poeta faz o cego amor.

(JAN 83‑ JUN 01)

 

Sem mais, à consciência, de repente,
qual música do olvido, o poema vem,
do pensamento ainda não refém,
botão de rosa puro, inexistente–
à tinta preso devindo somente
reflexo do que era e já não tem,
memória morta do que mais ninguém
possuirá senão de si ausente.
E no poeta vive, quando só,
sem máscaras, vazio o pensamento,
as águas mais secretas calha ouvir.
Porque ele apenas para além do nó
o apreende, do entendimento,
para o saber e enfim para o mentir.

(FEV 83 ‑ FEV 03)

 

Apenas ritmo, do esquecimento,
vazio, silencioso, adivinhado,
à mente do poeta descuidado
parece vir no nada dum momento.
E não chegado ainda ao pensamento
de súbito existe só lembrado,
qual sonho ao despertar já olvidado
que deixa inebriado o entendimento.
Palavras o poeta busca então
para fazer um pano de sentido
de quanto entendeu sem ter sabido.
E para si recria a ilusão,
pela consciência ainda falseada,
da eternidade quase apoderada.

(FEV 83 ‑ JAN 92)

VII

Na névoa do Inverno
as magnólias em flor
escondidas cheiram.

(SET 84)

 

Com a Primavera
o velho tanque de pedra
é um lagar de pétalas.

(NOV 84)

 

A baga mais bela
agora te mostrarei,
a que mais amarga.

(FEV 85)

 

Ao cair a gota
dir‑se‑ia o som da água
o eco do silêncio.

(JUN 85 ‑ SET 90)

 

Outono: por cada
diospiro que ficou
dois ou três caíram.

(AGO 84)

 

P’ra me consolar
me veio à mão sem saber
uma joaninha.

(DEZ 84 – FEV 05)

 

Depois que os amigos
partiram, em toda a casa
ouve‑se o silêncio.

(JAN 85)

II
Negado vi o amor
e sozinho me encontrei
da angústia preso, da dor
do sentir que conservei.
Mas, em lembrança mudado,
no seu coração já triste
sinto que, dissimulado,
um subtil desejo existe.
Porém, meu amor ausente
repele e se me cativa
de novo nada mais sente
senão enfado e se esquiva.

(ABR 81 (?) ‑ NOV 92)

 

Uma dor existe
de a supor sentir
mas subtil persiste
se a penso a fingir.

Por divertimento
a imaginei.
O seu movimento
já não governei.

E sentindo dor
já quase não sinto–
angústia maior
que vivo e não minto.

(JUN 83 ‑ MAR 90)

 

Minha própria ausência
sem engano vivo,
da aguda consciência
ciente e cativo.
Nem angústia sinto,
tão longa me foi:
assim crio e minto
‘ma dor que não dói.
Contudo, fingida
só na própria mente,
devolve‑me a vida
duplamente ausente.

(JUL 83 ‑ ABR 02)

 

Toda a minha vida
fez‑me a solidão
como que sentida
noutro coração.

Ao tempo, sem nada
no meu pensamento
vejo em mim negada
razão ou intento.

No silêncio, assim,
esqueço e me afundo.
Fico e vou sem mim
do sonhado mundo.

(JUL 83 ‑ FEV 93)

 

Na lentidão do actor
que seu papel esquecesse
quedei desejando a dor
que apenas sentir pudesse.

Pois se longa solidão
me alheou da alegria,
mesmo ela, ao coração
vida ainda insuflaria.

Porém, de si consumida,
no desejo que não sente
meu sucedâneo de vida
reavê-la apenas consente…

(MAR 84 – JAN 05)

IV
Que seja um sonho só a tua vida,
na acção da consciência inadvertida,
não seja em seu devir cinza esquecida!
Não sintas só na dor quanto é querida!

(JAN 82 – NOV 03)

 

Do dia à noite a vida passa breve.
E quanto, agindo, nela gravas, leve
ou fundo, nada apaga. Sem regresso
tudo é no mundo antes que a morte o leve.

(SET 82 – JAN 95)

 

Como água vens secreto ao que é a vida
no tempo e no espaço decidida
e à sorte ainda dada. Até que um dia
em terra ou vento esteja resolvida.

(OUT 82)

 

Pensando num poema de Li Bai

Um cálice de um Porto velho enchi.
Por ele, branca lua, bebo a ti,
tão sós os dois (mais eu talvez que sei
que um dia para sempre irei daqui)!

(JUL 82 ‑ JUN 89)

VI
Estou cansado, lasso como a morte, e os meus dias
        pesam como dois mil anos.
E no entanto estou vazio até de mim, vazio além da
        dor, veneno da alma
que, com o tempo, gela o sentimento.

Estou tão cansado, que até pensar é uma náusea.

E o cansaço, como um cancro,
mesmo a memória, o derradeiro livro, branqueia de
        silêncio.

(OUT 83 ‑ JUN 89)

 

Extraviado
em máscaras que foram, não as múltiplas vidas do meu
        ser demasiado grande p’ra ser uno,
mas isso só, onde a mim mesmo apenas ocultei a
        última verdade do meu coração,
além dos mitos de papel com que sonhei em vão
        lograr a consciência, espelho a que não fujo,
perdido já o tempo em que era e não sabia,
ou o que desatento amei e agora apenas lembro sem
        saber amar,
conheço a minha ausência,
existo, sem desejos, sem sentido.

(NOV 83 ‑ JUN 89)

 

Entendi hoje o que há de morte em tudo o que não
        fiz, ou nem sequer pensei,
igual à do que fiz sem que mais nada o mude até ao
        fim do tempo.
Gelada dor do que se sabe tarde, do que jamais se
        sonhará!

(JAN 84 ‑ NOV 93)

 

Não ter a inocência de quem crê no que deseja
ou de quem faz dos sonhos sua própria vida…

Saber do tempo como quem não pensa,
viver a ausência como se nada fosse!

Com que dados hei‑de trapacear a vida?

(JAN 84 ‑ OUT 92)

 

Que nostalgia
que nem é sequer a nostalgia do que nunca fiz
e noutro tempo acreditei poder fazer,
mas disso que jamais aconteceu nem sonharei jamais,
que a vida falhará,
só não o pensamento em cega conjectura!

(E nesta nostalgia, que afinal se pensa,
ah, quanta nostalgia de sentir!)

(JAN 84 ‑ MAR 02)

 

Pois, a infância: se ela tivesse sido agora, seria feliz.

Mas ela foi no tempo que, branqueando, os sonhos enfabulam
e na verdade é vida ausente só que a emoção recorda!

Reaver paraísos perdidos: engano da consciência, que
        à derrota tenta…

(MAR 84 ‑ NOV 04)