Poesias de Retorno e Fuga

Poesias de Retorno e Fuga

I
– Acaso viste as coroas dos montes, onde o passado dorme?
– Os castelos.

(NOV 91)

– É o veneno que em segredo rói
o próprio coração que o segrega.
– A tristeza.

(DEZ 91)

– Nela julguei capturar o tempo
mas salva apenas do esquecimento.
– A foto.

(JAN 92)

– O paraíso que perdeste um dia
e só na sua perda descobriste?
– A infância.

(FEV 92 – NOV 13)

III

Na nossa vida, aviso e distracção
à cabra-cega jogam, raramente
a consciência sempre intermitente
dela nos devolvendo a emoção.
Instantes há contudo em que antessei
o mais do tempo à vida concedido
e quantos sonhos e actos no olvido
destino enfim terão, que falharei.
E na consciência, então, emparedado
mais me parece o tempo acelerado…

(ABR 90 – JUN 14)

Só desengano desse amor guardei.
A sua dor mudou. Não a venci.
No sofrimento, tanto recalquei
a emoção que dela me perdi.
Pareço humano. Se o sou não sei.
Foi esse o preço a que sobrevivi…

(MAI 90 – AGO 16)

Eu sei o desengano e o sofrimento
mais do que o pensamento imaginara.
A fuga, a diversão, o aturdimento,
ainda que os procure, não achara.
Da inacção apenas me contento
nesta agonia que a vontade pára.
E a dor eu junto do conhecimento
à dor de nem sentir, que me bastara.

(MAI 90 – OUT 13)

O meu amor no ódio morreu.
Só o desejo lhe sobreviveu…

(OUT 90 – ABR 12)

Demais te amei. Há anos te perdi.
À dor e à solidão sobrevivi
(a que preço, p’ra mim o guardarei).
Noutros amores esse arremedarei.
Mas para me sarar sua ferida
curto parece o tempo duma vida.

(NOV 90 – JUN 12)

Quanto vivi no meu esquecimento,
em hábitos, rotinas, encaixado,
do sonho e da vontade alienado,
afeiçoado ao próprio desalento!
Como se não bastara a dor da vida
– no amor extinto, na enfermidade,
na morte de quem se ama, na amizade
traída às vezes, outras corrompida…
E o que perdi não posso reaver.
Vivi como se não fosse morrer.

(DEZ 90 – SET 12)

Conjectura de um homem
aos vinte e poucos anos

Acaso um dia jogue a minha vida
no preto ou branco duma decisão
(das que só pelos dedos duma mão
hei-de contar), a lucidez preserve
e a livre determinação que serve.
Da cobardia não devenha presa,
à tentação resista da fraqueza.
E não me desiluda o que não sei
de mim e agindo só descobrirei.
Que vida suportara, assim traída?

(OUT 92 – JAN 09)

II
Jamais desse amor venci
a dor, o caos, na traição.
N’ angústia, na desrazão
mais que podia, vivi.
P’rá vida, a medida, aí
eu tive da solidão.
Já me perdi na paixão
e a custo me reavi.

(ABR 90 – SET 11)

Às vezes, no pensamento
sinto o vazio da vida,
de súbito apreendida
fora do seu movimento –
e quanto no esquecimento
a vou vivendo, perdida;
e a que lhe está prometida
nisso, ‘inda às cegas, avento.
Sinto hoje no pensamento
todo o vazio da vida…

(JUL 90 – OUT 11)

IV

Perdeu-se-me da alma o movimento,
por tanta dor, paixão, acelerado,
e desengano e solidão travado,
que de sentir deixei o sofrimento.
Sem emoção vivendo, ou sentimento,
de mim, do mundo, já desencontrado,
das próprias palavras alheado,
vai-se-me esboroando o pensamento.
No desamparo, sem vontade ou norte,
parado estou, do tempo descolando;
e da consciência ainda me apartando,
na própria vida eu antecipo a morte.
E por momentos, numa angústia fria
meu coração se anima, e avaria.

(MAI 90 – MAI 11)

Cativo do silêncio o pensamento
em solidão sem nome tive já.
Eu vi¬ me aonde nem palavras há –
assombro apenas do esquecimento.
Essa vertigem do entendimento
onde só quase a consciência está,
quem, sem vivê¬ la, compreenderá,
esse saber do desconhecimento?
De uma penada, assim, eu trocaria
de quanto sou e sei toda a verdade
por um momento só de inconsciência.
Mas não ignoro (inútil ironia)
que nada pode a própria vontade
ante esta dor do tempo e da ciência.

(JUL 90)

Vamos provando a morte já em vida
no engano descoberto da amizade,
na perda de quem se ama, na verdade
de um amor num dia desmentida,
em quanto sonho ou ilusão querida
a prova falhará da realidade,
na dúplice falência da vontade,
na escolha à cobardia submetida…
E afora este saber, dia após dia,
perante a consciência intermitente,
nos envelhece o corpo e o alento
além da dor, do medo e da alegria.
Até que do que fomos, de repente,
já nada reste além do esquecimento.

(SET 90 – FEV 12)

VI

A chuva de Inverno
na Primavera se torna
em chuva de pétalas.

(JUN 91)

Tudo ignorando
da dor como da alegria
o rouxinol canta.

(JUL 91 – ABR 13)

O cheiro das tílias
no Porto, depois da chuva,
na lembrança guardo.

(MAI 91)

Na meia penumbra
os corpos desenlaçados:
duas solidões.

(MAR 92)
Na tua companhia
ainda curto parece
o mais longo dia.

(JUN 92 – MAR 13)

Dia nevoento;
na solidão punge mais
o envelhecimento.

(MAI 92 – SET 13)

Morrinha de Outono;
mais funda faz o silêncio
minha solidão.

(AGO 92)

Na casa em silêncio
de estar vivo neste mundo
a alegria sinto.

(OUT 92)

Todo enlameado,
meio podre, o diospiro
o quintal perfuma.

(DEZ 92)

Inverno que chega;
para onde quer que vá
é cinzento o mundo.

(NOV 92)

Da noite p’ra o dia
uma camélia caíu:
pétalas e água.

(JUN 92 – MAI 13)

Quando eu acordei
a tempestade era só
branquidão de neve.

(OUT 92)

Como há um ano,
a laranjeira florida –
mais um ano tem.

(JUN 92)

Flocos de água¬ neve
na cerejeira hoje vi,
as primeiras flores.

(MAR 93 – MAR 13)

Esquecidamente
umas vezes, outras não,
este mundo amo.

(ABR 92)

Pensando num haiku de Buson

Tu e eu:
duas vidas,
uma amizade.

(JUN 92)