Poesias de Vida Adentro

Poesias de Vida Adentro

I
É um ovo de pedra envolto pela hera onde ficou o tempo?
­– a casa.

(OUT 86)

A couraça de picos que protege um coração petrificado?
­– o ouriço da castanha.

(DEZ 86)

Acaso viste a chama branca onde o perfume dorme?
– o botão da magnólia.

(DEZ 86)

Acaso viste o espelho que os teus olhos não reflecte?
– o olho do cego.

(DEZ 87)

Conheces o passado do passado, o tempo onde os sonhos se quedaram para sempre?
­– o esquecimento.

(MAR 88)

III

Hoje, no meu pensamento,
apenas cansaço existe
que só da dor subsiste,
já nem do seu sentimento.
E assim, na sua ficção,
no medo da perda os minto,
ardil de sonho e instinto
que à vida prende, à razão…

(ABR 88 – JUL 05)

Meu sentimento passado,
da vida em sonho mudando,
vai sem querer olvidando
o coração magoado.
E se, pensando, me dói,
é já na sua ficção
que tece a recordação,
não no que deveras foi.
Assim, a sua verdade
erro, sem bem a mentir,
na mágoa de não sentir
agora mais que saudade…

(ABR 88 – JUL 05)

Mais serve a vida esquecer,
amiúde, que recordar
(sabê-lo, é da consciência,
aliás, a mais alta ciência).
E se o sentir, a pulsão,
remoem a errada opção,
possam a prova falhar
do que o destino prefere…

(ABR 88 – JUL 05)

Entre o silêncio e a rima
não sei se acho ou invento,
na vontade que me anima,
meu secreto pensamento.

E como um fio de nada
o desenrolo vãmente
na minha angústia parada,
tão longa que já não sente.

O tempo, às vezes, assim,
sem iludir a consciência,
ocupo perdido em mim
macaqueando a existência.

(DEZ 88)

A dor que outrora senti,
o pensamento captando,
a pouco e pouco a perdi,
em pensamento mudando
(de tempo, vontade, instinto
conjura foi, se não minto).
Só que hoje não sinto nada
nem quanto finjo, sentindo
ainda a angústia parada
da vida que vai fugindo.

(DEZ 88 – JUN 08)

Minha dor de ser,
em seu movimento,
fez­‑se pensamento
para se esquecer.

Mas dessa agonia
livrando-me então,
nisso a emoção
também eu perdia.

Hoje nada sinto,
mal ainda maior
que me ater à dor,
forçando o instinto.

E a vida imitando,
no tempo parado,
de mim desfasado
me vou enganando…

(DEZ 89 – JUL 05)

V

Esse poema com vagar reli
que no passado amei, agora não.
Seria ele menos belo então
ou da sua beleza me perdi?

(ABR 86)

Chove no Porto como no passado
onde eu escrevo, lúcido e ausente,
à mesa do café onde regresso
por um segredo aos actos evidente.

E do tempo, de novo enovelado
no vozear, no fumo, de repente,
o olvido, o desperdício, conheço
na vida cujo entretecer se sente…

(FEV 87 – FEV 06)

Persona

Tornei–me, para ser, a minha ausência
em máscaras que fui e que forjei
e onde ocultei o nada da existência.
Porém, nem sou os outros que sonhei –
só no que as palavras revelaram,
em cada poema, elas, me criaram.

(OUT 87)

Sabia num saber feito de olvido
(sabe-se apenas o que é sentido)
da morte que há na vida. Algo mudei.
Que há-de morrer quem amo agora sei…

(JAN 88 – ABR 07)

Dilema de um homem

Não posso não agir (a tentação
da cobardia é vã neste momento).
Entre dois males cabe-me escolher,
que um erro meu deixou como opção.
E quanto num e noutro há a perder
antecipando, disso me atormento.
Que várias vidas, ambos, mudarão…

(MAI 88 – SET 07)

Papéis ao vento. O trânsito encravado.
O cheiro dos cafés onde o passado
mudando vai ficando – hábitos velhos
guardados no segredo dos espelhos.
O formigar de sempre a nenhum lado.
As tílias sujas. Tempo embalsamado
na luz que cega. O marulhar tão lento.
Cidade onde se vive o esquecimento.

(JAN 89)

Na inércia vivem da imobilidade,
na lucidez duma esquizofrenia
onde sobre a memória prevalece
o sonho, que da acção tudo conhece.
Possível quanto ideiam lhes parece;
disso se bastam ante o que acontece.
Adiar a vida: eis a sua mestria.
Que importa? Apostam na eternidade…

(FEV 89 – NOV 04)

A angústia conheci da solidão,
no medo do vazio e da loucura –
e quem nela viveu não a esquece.
Mas hoje quase fútil me parece:
é duma vida agora que perdura
a incerteza no meu coração.

(JUN 89 – JAN 08)

Tristeza de durar, já nem sentida,
além das mortes que contém a vida.
Jogar para perder, mais não podendo,
à cabra­‑cega com o esquecimento.
Um labirinto só devir o tempo
e o passado ausência consciente.
Embalsamado corpo enfraquecendo,
sentir fugir o nexo, o pensamento,
já sem saudade ou medo, indiferente.
Tristeza tanta dessa morte em vida
de nela estar, estando já perdida…

(AGO 89 – OUT 08)

VII
Perdi a angustiada expectativa de não ser amado, a dúvida, maior que todas as certezas, perante a traição que se suspeita. Perdi as tardes de xadrês sob a morrinha com um amigo que se extraviou no tempo e na distância. Perdi o perfume das tílias em Arcos de Valdevez, que eu respirava com a nostalgia que se sente apenas pelo que se vive, não pelo que se lembra, e é a mais profunda nostalgia. O que se perde não é o que morreu, o que é irrepetível. O que se perde é o que já não se sente, o que ficou na memória, sem sentido.

(JUL 88)

Corrói o tempo, espelho onde nos vemos. Corrói a inevitável consciência. Corrói a indefinida nostalgia do que nunca foi. Corrói a angústia. Corroem os desejos nunca consumados, a que de nada serve ser eternos. Corrói o silêncio esvaziado de palavras. Corrói o ódio, maior às vezes do que o coração. Corrói a dúvida. Corroem alguns actos que a memória para sempre guarda. Corrói a lembrança que os recorda. Corrói o medo. Corrói a dor. Corrói o secreto esquecimento. Corrói a paixão, o mais amado veneno. Corrói a vida, pr’á morte perdendo.

(JAN 90 – JUN 05)

II
Da água vim a este sonho obscuro.
No tempo breve a morte prefiguro,
onde na busca a fuga amiúde engano.
E às vezes pela acção me esqueço e apuro.

(AGO 87)

De meus sonhos passados me perdi.
Fundas certezas: quantas não revi!
E quanto mal, na dor de conhecer,
sem poder impedi–lo, apercebi!

(OUT 87 – MAI 07)

Oculto é quanto o destino “tece”,
esse acaso aziago que acontece.
E a destempo, inevitavelmente,
sua presa descuidada o reconhece.

(DEZ 87 – JUN 07)

Da vida não ignoro o que falhei,
nem o que, sem saber, ignorarei!
E nela a dor da perda, o desengano,
por prova, a contragosto, ainda sei!

(JAN 88 – JUN 07)

IV
Na sala havia um cheiro de jasmim,
olhaste­‑me em silêncio longamente.
Falara­‑te de um poema de Khayyam
sabendo que te amava. Nesse tempo
no espelho dos teus olhos ainda não
sabia ler: apenas tu em mim.

(DEZ 86)

Decerto na lembrança a morte dói.
Mas nela o tempo, até como não foi,
ainda é possível reviver. De ti
só guardarei porém o que perdi
antes ainda de o chegar a ter.
Esse desgosto: como o esquecer?
Já nem há-de tremer, na comoção
de te encontrar, sequer meu coração
– p’ra sempre dissipada a incerteza,
sem acrimónia ou falsa gentileza.
Mesmo a amizade, meio desejada,
se entendo bem, estar-nos-á vedada.
O atormentado encanto da espera,
sonho desfeito, o tempo suspendera.
E agora chove só na Foz tão gris,
onde estou só. Que sejas tu feliz!
Será voltar à vida o meu intento.
Hoje a mágoa me faz de pensamento.

(JAN 87 – JUN 07)

Perdi-te. No passado agora estás.
Mas nem aquelas que, p’ra te esquecer,
de nada suspeitando, amei em vão
(p’ra o tarde o sei) me puderam valer:
a nora velha do meu coração
sempre à lembrança a mesma água traz…

(MAR 87 – JUL 06)

Tudo rompeste. A anos de paixão,
vício que amei, na muda solidão
dos dias, um a um, sobrevivi,
e ao que de mim, perdendo-te, perdi.
É certo: o ódio conheci no amor,
mas é a ti que devo o meu melhor.
Como o esqueceria? O que acabou
nem por isso morreu: longe ficou.
Tragado pelo tempo, não tem cura.
E de ter sido, p’ra sempre me apura.

(AGO 87 – JAN 07)

VI

Reflexão dum homem aos trinta e poucos anos

Baralha a vida os sonhos, a inocência
que a prova desconhece da escolha
dissipa. É sua ciência o desengano,
a dor de conhecer. Mas nem por isso
a diversão, a fuga, procurando
a desperdiçarei, acobardado.
Do medo sei, sem lhe prestar tributo.
E o azedume do cinismo evito.
Amigos, tenho alguns, provei o amor
(e antes a paixão). O bem me anima,
sem dele me iludir. Prezo a verdade.
E c’o a beleza às vezes me deslumbro.

(FEV 87 – JUL 07)

Um regressado pensa

Na insónia deste Junho, sem destino,
o passo me levou pela cidade.
Nomes de ruas que esquecera já…
S. Bento esvaziada de comboios,
no tempo mingüada, a Cordoaria,
o Douro, que parado vai fugindo;
na marginal o mesmo cheiro a mijo,
enfim o forte de S. João da Foz.
Era este afinal o meu destino:
o mar, ao menos, amarei sem fim.
Nesta cidade onde caminho agora
de novo a minha teia vou tecendo
(a que me tece a mim ignorando)
sonhando–a num passado que não foi,
tão estrangeiro como em qualquer outra.

(JUN 88)

Naquele metro houve uma rapariga
que entrou e se sentou à minha beira
num desses actos que uma simpatia
secreta traem, quase a contragosto.
O rosto oval, os olhos de avelã,
uma sensualidade inconsciente.
Mas no breve percurso que faltava,
camaleão dos sonhos, fiquei preso
numa teia de angústia e de desejo,
palavras procurando em seu olvido.
Os olhos de avelã, o rosto oval,
sua delicadeza adivinhada,
perdidos procurei sem mais achar.

(ABR 89)

VIII
Variação sobre um tema de Bashô

Primavera: até
a chuva agora me cheira
vagamente a flores.

(JAN 86)

A flor da carqueja
do orvalho não precisa
p’ra me parecer bela.

(MAR 86)

Quando tu me amavas
qualquer vestido servia
p’ra me fazer bela.

(NOV 86)

Cartas esquecidas
o perfume conservando
de quem já não amo…

(MAI 88)

Glicínias em flor:
até a chuva parece,
hoje, perfumada.

(SET 89 – JUN 08)

Uma gota de água
quase, quase, a desfazer­–se
espelhando o mundo.

(NOV 87)

Ameixa madura:
limpasse-la da poeira,
servira de espelho.

(FEV 86)

Não fora a insónia,
do jasmim que saberia,
perfumando a noite?

(ABR 89 – ABR 08)

Desde sempre ali,
a oliveira parece,
súbito, mais velha.

(FEV 86 – OUT 08)

Também a amizade
às vezes, desavisada,
vai envelhecendo.

(OUT 88)

Um a um se vão
os dias secretamente
descontando à vida.

(ABR 89)

Para sempre verdes
os pinheiros no entanto
vão envelhecendo.

(NOV 87)

Quando não souberes
o que fazer da tristeza
abraça uma bétula.

(AGO 89 – ABR 08)

Com a minha mãe
na meninice acordei,
ilusão dos sonhos.

(OUT 88 – FEV 08)

Sem destino errando,
as giestas encontrei,
perfumando a neve.

(JAN 90)