Poesias publicadas na revista DiVersos

Poesias publicadas na revista DiVersos

DiVersos 24
Na Pechora, anos 30

Não percebeste: és um escravo aqui;
mais do que escravo, aliás, um inimigo;
e menos do que a tua utilidade
valendo, a tua vida tens em perigo –
convém não ignorares a obviedade.
A circunstância impõe-te a regressão
acaso aspires à sobrevivência
(do que tu sabes, quase tudo é vão).
E onde o arbítrio serve a violência
melhor será que ninguém dê por ti.

(JUN 10)

Um quinquagenário reflecte, em 1925

Revejo a minha vida, que falhei;
da cepa torta já não sairei.
O impossível nem ambicionava;
a mediania, nela, me bastava.
Amei uma mulher que não me quis;
a profissão errei. No que não fiz
cogito, no que nunca aconteceu…
Procuro quem já quase me esqueceu,
apenas na presença desejado:
o irmão que resta, amigos do passado.
E nisso engano ainda a humilhação
do afecto decomposto em compaixão.

(DEZ 10)

Um balanço, em 1932

Outra mulher amando, te escolhi.
Mas o acto falhei: não a esqueci
(descurando, aliás, um “pormenor”:
ao menos tu por mim tinhas amor).
Nossa harmonia dúbia suportei
até que, não podendo mais, quebrei.
Assim nos separámos. Mais sofreste.
Da vida, o mais que recebi, mo deste.

(NOV 12)

Uma mulher recorda

Passaram trinta anos e ontem foi.
Varreu a dor? De outro modo dói.
Perdi um filho, quase já crescido,
por um estranho um dia acometido.
Voltei à vida, ou antes, me esforcei;
mas desde então apenas a imitei.
Outra felicidade antecipava
quando, nela vivendo, a descuidava…

(DEZ 12)

Um comissário brasileiro reflecte
na morte dum companheiro, anos 50

O crime elucidaste: o assassino,
a trama, o seu mandante, descobriste.
Na rebeldia, em tua integridade,
perto demais da solidão agiste –
nem mesmo em quem podias confiaste.
Da tua vida, a vulnerab’lidade
‘scapou-te ou só o medo desprezaste?
Subestimaste, nos que perseguiste,
o arrogo, a rapidez, a ruindade –
ou, antes, noutro perigo os distraíste?
E outra traição parece o teu destino…

(FEV 14)

Reflexão de um homem em 1906

A liberdade menos me servia
do que a abdicação da cobardia.
Seu preço, nisso, logo descobri;
mas a vontade, agindo, não traí –
nem a verdade que antes aclarara
(e por interesse meu ignorara).
Rancor e ódio, assim eu concitei.
E, sem buscá-la, a solidão achei.

(MAR 15)

DiVersos 16
Reflexão dum Jónio, séc. V AC

Por séculos, a nossa “lealdade”
recordarão os Persas. A ocasião
da sua perda – ou sua salvação –
(e mais, de reaver a liberdade)
tivémos: eis o que saber convém.
Pela prudência que do medo vem
(estratégia dos fracos), não “traímos”.
Não só vingança isso nos poupará,
sua gratidão, ademais, nos valerá.
Mas a vontade, nisso, reprimimos.

(JUL 08)

Um russo pensa, em 1938

Desde a infância te conheço –
julgava eu. Mas que sei?
Após meses de prisão
vivo estás. Teu sofrimento
sendo óbvio, por que razão
me escondes o pensamento?
Que eu seja um denunciador
conceberá o teu medo?
(Ou devo ao invés supor
que sê-lo é o teu segredo?)
A dúvida calarei.
E do seu nó … estremeço.

(JUL 06)

Um homem reflecte, Moscovo, 1936

Tua ambição e manha conhecia,
a dissimulação não ignorava
e da impiedade a prova tinha;
só algo me escapou, à evidência,
da tua industriosa paciência.
Mas o que na verdade isso servia
o enigma dos lances enganava.
E consumado apenas se adivinha…

(JAN 09)

Um oficial russo na Tchetchénia, em 2002

Com a “coragem” da irreflexão,
num assomo de nojo e hombridade,
um crime denunciei; um acto vão
(tarde o compreendi): a impunidade
o espera. E pior, a raiva me valeu
de quem – onde a violência dita a lei –
por ódio e por desporto o cometeu.
Com o meu medo, de repente, dei,
em jogo apercebendo a minha vida.
Um tempo a “redimir-me” resisti:
atraiçoar-te era a contrapartida;
até que ao teu destino te atraí.
A infâmia dos meus hei-de esconder
(topada pelos teus, p’ra meu castigo).
Mas não antecipei o que é viver
por troca com a morte dum amigo…

(JUN 07)

O instinto, obviamente, não mentiu:
a consciência apenas iludiu –
pois certo, na paixão, de que te amava,
de ti, como de vida, precisava.
Mais tarde apenas isso descobri,
na angústia de me separar de ti.
E no entanto o meu melhor te dei –
no que o meu destino ainda enganei…

(OUT 07)

Uma mulher pensa, nos finais do séc. XIX

Já não me amavas. E que tarde ou cedo
tudo acabara sabia, sem medo.
Tua mentira veio sem surpresa:
dela guardei mais a delicadeza.
Engano vindo da necessidade
foi nosso amor? É póstuma verdade.
Mas que me importa?: enquanto foi, vivi –
só o que nunca aconteceu perdi.

(OUT 08)

DiVersos 13
Um homem reflecte, em 1913

Sem suspeitares, tua mulher amei,
que como a ti apenas conheci,
eu, teu melhor amigo. Se traí –
ignoro. Por um triz não te matei,
destino que ao detalhe planeara.
Por mim mais que por ti me abstive
de premir o gatilho. Pronto o tive:
três vidas que no acto deslaçara.
A ocasião falhei por “cobardia”
pensarás, acertando por metade…
Por testemunha da tua inocência
tinha o descuido teu, a consciência.
E envenenara-me a “felicidade”
tua morte até à minha. Isso sabia…

(MAI 06)

Reflexão de um oficial português no 5 de Outubro de 1910

Da tentação de escolher
me desconvence a razão:
coubera–me defender
o que, já sem remissão,
morto, arremeda viver.
Tão-pouco eu o trocaria
por quem vencerá, porém:
promete só tirania
e caos, se o entendo bem,
seu ódio e demagogia.
Agira p’ra quê, assim?
Sucede: o meu tempo errei.
Entre o que chegou ao fim
e o que virá só não sei
qual nos será mais ruim…

(SET 06)

Um governador da Narbonense em 69 DC

Não me bastara saber
que ambos funestos serão:
calhou–me, sem opção,
entre um e outro escolher.
Sem que me importe, aliás,
nem isso me deixa a sorte:
‘stá longe, Otão. Chegaria
aqui Vitélio num dia –
nenhum vale a minha morte…

(JAN 07)

Onde a corrupção impera

A trama dos eventos entendendo,
seu desenlace logra antecipar:
a dor de conhecer, pouco podendo
mais que sabê-la, lhe é familiar.
Mas acicata-o a intenção do bem
a tentar o improvável pela acção.
Do jogo, aí, sente a paixão também…
E o perigo mais lhe aviva a solidão.

(FEV 07)

Reflexão dum homicida

Arguem se houve premeditação,
tanto os baralha a minha “desrazão”.
Nisso os engana a sua hipocrisia.
Mas seja. O acto, repeti-lo-ia
(o que já não lhes confidenciarei).
Para sua surpresa não neguei
os factos: nem a vida tenho em perigo,
quando, ademais, viver é meu castigo!
E aprecio o luxo da verdade.
Matei um criminoso. A impunidade
p’la corrupção das leis o esperava –
sendo que a dos homens lhe bastava.
Alívio senti. Só o ensombrece
o destino quedar no que acontece…

(JUL 07)

De um polaco a um amigo judeu, em finais de 1939

Não: senhor dos teus actos já não és,
no que, p’ra teu perigo, ainda crês.
À nossa volta mingua a liberdade –
e à tua mais: o apego ou a vontade
não lhe podem valer, na tirania.
Agora, a fuga só te salvaria.
Mas, pela evidência atordoado,
vives ainda como no passado…

(AGO 08)

Uma mulher recorda

Amei-te como a mais ninguém depois
(o que, adivinho, valerá p’ra os dois).
E no entanto, bem te desejando,
o amor, lucidamente, fui minando.
Quiçá no medo de perder-me em ti,
sem poderes ignorá-lo, te traí.
E a tua violência provoquei –
verdade cujo ónus te deixei.
O teu amor de mim me salvaria
mas pelos actos sei que o não queria…

(NOV 07)

DiVersos 10

Distracção, fuga e olvido
sucedâneo de sentido
lhes dão à vida. Aversão
pela mudança e a acção
ruminam. A liberdade
sonho lhes é da vontade:
não pouco do que acontece
destino, assim, lhes parece.
Por cobardia, perdida
de partido dão a vida.
Falta-lhes alma e alento
p’ra mais que seu sofrimento…

(JUN 05)

Dois destinos

As cartas que de Roma lhe chegaram,
passou-as Caracala ao seu prefeito
para que despachasse o expediente
e do essencial o informasse
mais tarde, finda a sua distracção.
Assim o fez Macrino, o seu destino
por engano do acaso interceptando:
falava uma de uma profecia –
ao que mais o tirano predispunha
a suspeição que o crime, o medo, gera –
que a Caracala ele sucederia.
Ditada p’la perfídia, ou desvario,
a entendeu Macrino, a sua morte
anunciada, sem apelo, lendo.
Sem outra escolha, co’a de Caracala
a esconjurou, os áugures odiando,
por ironia a predição cumprindo.

(MAI 01)

Não só mal alguém te quer
como o intenta fazer
sem que p’ra isso “razão”
encontres na tua acção?
A sua necessidade
(que toma pela vontade)
lhe basta, de se vingar
do seu mal, sem o curar –
que o gozo de infligir dor
não torna a própria menor.
Por que escolher-te porém,
logo a ti? Se entendo bem,
procura o ódio, na presa,
valor, outridão, fraqueza…

(AGO 05)

DiVersos 7

Já não te amo: já nada a perder
tenho de ti, atónita tristeza.
A hipocrisia da delicadeza
descubro agora, na sua verdade
feita de cobardia e de piedade:
já te odiei; não te quero magoar.
Nada tenho a perder, nada a ganhar:
nem mais me poderás fazer sofrer …

(SET 01)

Pensando em Diógenes, o Cínico

O tempo se acelera, a vida foge;
já pouco espero ou desejo hoje.
Mas, sem lanterna alumiando o dia,
voltar a encontrar me alegraria –
até pelas hipóteses que somem –
um homem que também me achasse um homem…

(DEZ 98)

Reflexão de Marco Aurélio

Por medo, Cássio, te suicidaste,
medo de mim, duma vingança crua,
a que o orgulho ferido da derrota
na sedição que atiçaste longe
alheio não será. Um travo amargo
me deixa na vitória a tua morte,
a tua morte, que o prazer me furta
de converter-te um dia num amigo.

(ABR 01)

DiVersos 1
Na Torre de Galata, em Istambul

Recordo em Istambul sem nostalgia
o tempo em que a sonhou meu pensamento;
o seu vaivém observo desatento,
o ocre ao longe de Aghia Sofia.
Do que nela busquei está vazia –
falso era do desejo o fundamento.
Este saber me deu no nevoento
entardecer do derradeiro dia.
Como noutras cidades antes dela
(ou talvez mais ainda em seu passado)
em Istambul a vida procurei
mais plena do que a minha, por não sê­‑la.
E agora a entrevejo em seu estado,
ignorando se a ela voltarei.

(SET 92)

Breve meditação de uma mulher Bósnia em 1993

É certo que o desprezo, simulado
mais que sentido, às vezes afectei;
e já senti rancor ante a maldade
gratuitamente usada, por prazer;
à insolência tenho recorrido
que é a verdade; (e, claro, à ironia
para vingar humilhações, ofensas:
droga sem preço p’ra enganar a dor).
E como tudo isso era inocente,
memória só de uma outra vida!

(MAR 93)

DiVersos 19
No acto apenas conheço
amiúde o meu pensamento
(no que a magnitude meço
do meu desconhecimento).

Faz-me a incerteza de lei;
e de mim, nela, diferente
mais do que abarco me sei,
de um saber que não mente…

(MAI 90 – JUL 11)

Recordo, na dor da ausência,
agora o meu bem passado;
quiçá da sua evidência
em vida passou-me ao lado.
Só hoje, que o sei perdido,
é que o descubro, aturdido.
Mas noutra emoção o sinto:
fez-se ele já pensamento.
Quanto, sonolando o instinto,
se vive no esquecimento!…

(JUN 90 – SET 11)

O tempo em que vivi apaixonado,
ao coração me volta ensimesmado;
como jamais depois, estava vivo
mesmo sofrendo, da paixão cativo.
N’ angústia e na alegria, o ser amado
eu fui então, do amor enamorado.
E agora só co’a solidão eu privo
e a vida até, no desengano, esquivo…

(ABR 90 – ABR 11)

No sobressalto, às vezes, do momento
quanto vivemos esquecidamente,
na dor da perda e do conhecimento,
a atenção nos devolve, intermitente.
Da nossa vida, assim, o sentimento
reaver nos acontece brevemente;
até que a distracção, o alheamento
de novo, gasta a emoção, nos tente…

(SET 90 – FEV 12)

Ao amador que a paixão sujeita
mais que a traição, a dúvida angustia;
e da inimiga mesma, a companhia
deseja só, e a humilhação aceita
(que o rancor e a aversão amplia).
E na agudeza ainda da agonia
sabe amiúde já o que suspeita…

(OUT 90 – ABR 12)

No desamor, na solidão, vivi.
Na sua intensidade e duração,
mais que podia suportar, senti.
Assim, da dor perdi a emoção
(o que já sem remédio percebi).
Há na sobrevivência regressão…

(NOV 90 – JUN 12)

Senhor da minha vida me sentia,
da esperança até escarnecia –
um outro era. Acontece amiúde
n’ arrogância da força e da saúde;
e da ignorância, de que me bastei:
quantas verdades nela não fundei!
O preço das escolhas, a medida
da liberdade, hoje aprendi, da vida…

(JAN 91 – SET 12)

Um homem reflecte, em 1906

Desejo com amor não confundi.
Não me iludi (verdade que omiti).
Que uma mulher queria cogitava
quando de facto duma precisava.
Nisto, na minha vida apareceste
e, mais intuitiva, me escolheste.
Outra deixara que, porém, amei.
É sem querer que a ti me ligarei.

(SET 12)

 

Numa fuga, anos 70

Um outro amava (não o saberás),
cuja duplicidade descobri
por mero acaso; ele por nada deu.
Mas não foi isso que me demoveu.
Sem meu socorro então baquearia
alguém cuja aflição eu conhecia.
E o seu destino pelo meu troquei:
a minha escolha não lamentarei.
Tu pensarás que eu voltei p’ra ti.
Eu sei apenas que voltei atrás…

(OUT 12)

Uma síntese, aos 55 anos

Ao conhecer-te, precisei de ti
(é isso o amor). E, nisso, te escolhi.
Prazer e alegria partilhámos
(antes do sofrimento). Procriámos.
Um dia, a adversidade nos tocou.
Trégua nos dá? O ânimo esgotou.
Teu corpo envelheceu, que desejei.
Já não te amo. Não te deixarei.

(OUT 12)

DiVersos 14
Um juiz militar reflecte

Que eu absolva um criminoso quer
quem sobre os dois detém igual poder.
Provas forjadas que o ilibariam –
minha consciência, enganá-la-iam?
Acresce que, abdicando da verdade,
traíra ainda a minha liberdade.
Mas não ignoro o que acontecerá:
sua sentença condenar-me-á…

(NOV 07)

De uma mulher a outra

Desdenhas-me, bem sei, porque sofri,
porque daí ficou uma tristeza
que para ti é prova de fraqueza.
Ao âmago chegaste da verdade:
sempre me arrepiou tua acuidade.
Mas tu a minha dor não conheceste
e ajuízas sobre o que jamais viveste.
Sobrevivi-lhe. Não te calhe a ti…

(FEV 08)

Um homem recorda

Como quem seu destino desafia,
mais só que tu, me separei de ti.
A lassidão de vez me consumira
na vida entremeada de mentira
(o sexo, a compaixão, tua virtude
do amor fazendo as vezes, amiúde).
Outras mulheres descobri, é certo,
da vida um renovado desacerto.
Mais que supus eu apostei. Perdi.
E o desfecho, no fundo, conhecia…

(MAR 08)

DiVersos 11
Os betonistas, Portugal, 2007

A manha que acompanha a cupidez
da inteligência neles faz a vez.
Não dão ponto sem nó. A corrupção
dos homens e das leis (sua predação
dopando) lhes garante a impunidade.
Na aposta ganham da duplicidade.
Olheiros do espaço, a sua presa,
enchê-lo a eito têm por empresa.
Do seu agir se sabe, consumado.
Estorvo que é, desprezam o passado.
Ignoram a beleza. Na violência
da fealdade fundam a existência.
Do caos alheio, sem que lhes importe,
vivem em vida. E nele após a morte.

(FEV 07)

Uma mulher reflecte, anos 30

Anos mais tarde apenas percebi:
pelo teu desamparo é que te amei
(e porque me querias tu, bem sei),
por uma gentileza, adivinhada,
no sexo e pela vida confirmada.
A que sobreviveras ignorava –
saber do teu segredo me bastava.
De engano se nos tece a percepção:
salvar-te presumi da solidão.
Mas pouco ou nada posso eu por ti…

(MAR 07)

DiVersos 8
Calhou-me, no acaso dos arrumos,
dar com as cartas a quem tanto amei,
na raiva da rotura devolvidas.
E a tentação a repulsão vencendo,
na angústia de outrora as fui relendo,
segredos branqueados resgatando:
as dúvidas do amor, as alegrias,
contentamentos turvos de cuidado,
cruéis verdades, a embrieguês
do ciúme ao ódio, à posse, compelindo,
num reencontro o fim adivinhado,
a dor que se ama, o caos do coração
em toda a lucidez do pensamento.
(Maior do que eu então era decerto
mas sê­‑lo­‑ia só pela paixão
ou foi minguando a alma com o tempo?)
Vida passada de que nada resta,
que nunca devirá esquecimento,
pensada na memória que, sentindo,
não é o coração que já não sente …

(FEV 93)

Um soldado de Vitélio pensa no dia do seu aniversário, em 69 DC

Completo hoje vinte e quatro anos
de vida, de que dias só me restam.
Como os eventos se precipitaram
no fio das derrotas e traições
a um homem que, o Império desejando,
à ambição e ao medo os crimes deve!
Percamos a batalha ou nos rendamos
a morte só me espera; mas podendo,
o ferro à justiçagem preferira,
este César servindo que desprezo.

(JAN 01)

Um homicida pensa

Se foi da liberdade a opção,
se mais subtil cedência à tentação
do bem, ignoro: um homem matei;
de esclarecê-lo, aliás, não cuidarei.
Investi nesse acto a lucidez
na inversa relação da sensatez:
perdurarão a corrupção e o mal,
quando a prisão perpétua me vale.
Perdi na troca. Não tudo, porém:
a solidão já conhecia bem;
e, na aparência distraída, vária,
a vida é outra penitenciária…

(OUT 02)

DiVersos 5
Projectos, sonhos não realizados
afloram de repente ao pensamento
sobreviventes do esquecimento,
como noutra memória conservados.
P’ra lá da vida ficarão adiados
alheios para sempre ao movimento
do tempo e do meu desconhecimento
em nenhum acto nunca transformados.
Mas quanto guardará de eternidade
a sua forma própria de existência,
jamais envelhecidos, sendo ausência,
em sua pura inviolabilidade!
Só eu o tempo nunca iludirei
em quanto for, nem no que sonharei.

(JUN 90)

Quanta desatenção, esquecimento,
enchendo vão o tempo desta vida
em modas, em vaidades, iludida
tão feita de ciente alheamento.
Que sonhos falhará o pensamento?
De quanto foi, quanto já é perdida,
no tempo não, no que de si se olvida
na mutação do próprio movimento?
Quanta melancolia de saber
como vacila, em tempo de incerteza
duma doença ruim, na desventura,
o sentimento grande de a viver…
E com ela, por vezes a estranheza
de quanto o acaso ainda configura!

(SET 90 – FEV 12)

No azul de Outono de uma dessas tardes
em que a tristeza faz mais lento o tempo
parti de casa ignorando ainda
que para a estação me encaminhava.
Por uma angústia vaga da consciência
eu, que ninguém espero, de um comboio
quis ver os passageiros que chegassem
de quem nada soubera de outro modo,
tal como desse nada saberei,
no cais dos desencontros que é a vida.
Quedei­‑me assim, gastando o meu cigarro,
atento mais aos que ninguém espera.
(“Como é pequeno o mundo” no clichê
e tão maior que todo o pensamento!)
No eterno formigar das estações
comigo se cruzaram, como outros
quaisquer a outra hora, o meu segredo
quiçá este ou aquele partilhando.

(NOV 91)